A resistência na terapia: quando algo em nós luta contra a própria cura

A vontade de abandonar o trabalho terapêutico pode ser o sinal de que ele está funcionando. Entenda o que Reich chamava de resistência na terapia e o que fazer quando ela aparece.

As primeiras sessões costumam trazer alívio. Há uma leveza em finalmente falar, em ser ouvido sem julgamento, em colocar em palavras o que ficou represado por tempo demais. Depois, em algum momento, algo muda. Uma irritação sutil com o terapeuta. Um tédio inexplicável. Uma vontade de cancelar a próxima sessão que não se explica bem — ou que se explica com muita facilidade, sempre com uma justificativa razoável.

Isso não é sinal de que a terapia não funciona. É sinal de que ela começou a funcionar de verdade.

O que Reich viu primeiro

A primeira parte do livro Análise do Caráter é dedicada inteiramente às defesas do paciente. Reich percebeu que o maior obstáculo no processo terapêutico não era a falta de memórias ou de insight — era a forma como o paciente, de maneira inconsciente, se protegia da própria análise.

Essa proteção não aparece como recusa declarada. Aparece como comportamento — sofisticado, automático e muitas vezes invisível para quem o exerce. Reich foi o primeiro a sistematizar essa observação e a tratá-la como material clínico central, não como inconveniente a ser contornado.

O nome que ele dava a esse sistema de proteção era couraça. E a resistência na terapia é a couraça operando dentro do próprio setting terapêutico — usando os mesmos mecanismos que aprendeu a usar fora dele.

Como a resistência na terapia aparece?

Raramente o paciente diz “não quero ir fundo nisso”. A resistência é mais sutil e mais inteligente do que isso.

Aparece como o paciente que concorda com tudo, responde a cada pergunta com gentileza e nunca se aprofunda. A gentileza funciona como escudo: mantém a relação agradável e o processo seguro, sem risco de ser tocado de verdade. Aparece como o que preenche o tempo da sessão com assuntos periféricos — o trabalho, a política, o problema do vizinho —, evitando o silêncio e o que ele poderia trazer. Aparece como o que intelectualiza cada sentimento antes de senti-lo, transformando a sessão numa análise interessante da própria vida sem nenhum contato real com ela.

Aparece também como a justificativa financeira que surge exatamente quando o processo toca em algo mais sensível. Dificuldades financeiras são reais e precisam ser levadas a sério. Mas a frequência com que essa realidade emerge no momento em que a terapia começa a incomodar de verdade merece, no mínimo, curiosidade — e vale ser trazida para a sessão antes de virar decisão.

Resistência na terapia: a couraça operando dentro do processo terapêutico
Foto de Cottonbro Studio – Pexels

A lógica da resistência

O padrão que a terapia está tocando foi construído para proteger. O organismo que aprendeu a se defender não abandona essa defesa porque alguém sugeriu que seria bom fazê-lo. Seria incoerente — e o organismo não é incoerente. Ele faz o que sempre fez: protege.

A resistência é, nesse sentido, uma resposta racional a uma ameaça percebida. O problema não é a resistência em si — é quando ela opera fora da consciência e o paciente a confunde com a realidade. Quando “não quero ir à sessão hoje” vira “esse terapeuta não me ajuda”. Quando “esse tema me desconforta” vira “esse processo não é para mim”. Quando a couraça encontra uma narrativa plausível e o paciente abandona o processo, acreditando que o problema é externo.

É exatamente nesse ponto que muitos processos terapêuticos se interrompem — não porque não estavam funcionando, mas porque estavam.

O que fazer com ela?

A resistência não se resolve sendo contornada. Ela se resolve sendo nomeada — de preferência dentro da sessão, para o terapeuta.

Dizer “hoje eu não queria ter vindo” é um dos movimentos mais produtivos que um paciente pode fazer. Dizer “estou com raiva de você” ou “sinto que não estamos saindo do lugar” também. Trazer o desconforto para dentro da relação terapêutica em vez de usá-lo como razão para sair dela transforma o obstáculo no próprio trabalho.

A resistência nomeada deixa de ser invisível. E o que não é mais invisível pode ser examinado — de onde vem, o que está protegendo, o que custaria deixar ir. É nesse movimento que o processo terapêutico frequentemente avança de forma mais significativa.

Uma nota final

Se você está num processo terapêutico e reconheceu algo neste texto, vale levar para a próxima sessão — inclusive o próprio texto, se isso ajudar a começar a conversa.

Se ainda não começou e reconhece esses mecanismos em você para procurar um profissional, ofereço uma entrevista online gratuita, sem compromisso, para nos conhecermos e entendermos juntos se a terapia reichiana é o caminho certo para você.

Marcelo Ivanovitch — Terapeuta Reichiano
Atendimentos presenciais no Rio de Janeiro e online para todo o Brasil.

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Crédito da imagem de destaque: Foto de RDNE Stock Project – Pexels.

Marcelo Ivanovitch
Marcelo Ivanovitch

Marcelo Ivanovitch é terapeuta reichiano com atendimento presencial em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e online para todo o Brasil e exterior. Formado pelo Instituto de Formação e Pesquisa Wilhelm Reich (IFP-Reich), trabalha com adultos que buscam integrar corpo, emoção e pensamento num processo terapêutico consistente. É também criador do Projeto Coniunctio, voltado para masculinidades saudáveis.

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