O filme de David Lowery chegou num momento específico — quando eu elaborava um trabalho sobre o segmento cervical e o medo da mudança. A coincidência foi produtiva. Sir Gawain não é um herói reichiano, mas poderia ser.
O mito em duas frases
Na corte de Camelot, durante um banquete de Ano Novo, um ser colossal e enigmático — o Cavaleiro Verde — propõe um jogo: qualquer cavaleiro pode desferir um golpe de machado contra ele, com a condição de receber o mesmo golpe um ano e um dia depois. Gawain aceita, decapita a figura, e o Cavaleiro Verde se levanta, recolhe a própria cabeça e lembra o jovem cavaleiro do acordo.
O que começa como um gesto de bravura passa o ano inteiro cobrando seu preço.

O que Gawain carrega no pescoço
Sir Gawain não é um herói clássico — é um homem ansioso por provar que merece estar onde está. Sobrinho do Rei Arthur, cansado de ser reconhecido pelo parentesco e não pelos próprios feitos, ele aceita o desafio antes de entender o que está aceitando. O que carrega na jornada não é uma missão — é uma couraça: o ego que precisa ser honrado, a necessidade de controle, o medo de ser menos do que o que aparenta.
Essa tensão tem endereço corporal. O pescoço é a ponte entre o que se pensa e o que se sente — entre a cabeça que planeja, controla e performa, e o corpo que sente, cede e se entrega. Quando essa ponte está travada, a cabeça governa sozinha. A vida se torna uma série de decisões calculadas, posturas mantidas, sentimentos administrados. Gawain conhece bem esse estado. Toda a sua jornada é sobre o custo de mantê-lo.
“Off with your head” — o duplo sentido
Se você ainda não assistiu o filme, sugiro que o faça antes de prosseguir para evitar o spoiler.
No clímax do filme, após uma visão perturbadora de como seria sua vida se fugisse do destino, Gawain finalmente se ajoelha e se rende. O Cavaleiro Verde pronuncia a frase que fecha o filme: “Well done, my brave knight. Now… off with your head.”
A ambiguidade é o coração de tudo. Literalmente, é o cumprimento do acordo — o golpe prometido, a decapitação. Mas Lowery deixa a frase suspensa numa segunda leitura: “leve sua cabeça embora”. Abandone a tirania do controle, do planejamento, do ego que precisa saber o que vem depois. O que o Cavaleiro Verde exige de Gawain não é a morte — é a rendição.
E rendição, aqui, não é derrota. É o único movimento que a transformação aceita.
O que isso tem a ver com a clínica
A desconexão entre cabeça e corpo não é metáfora literária. É o que aparece na sessão quando alguém analisa a própria vida com precisão cirúrgica e não consegue sentir nada enquanto faz isso. Quando a narrativa está impecável e o corpo permanece quieto, distante, ausente de si mesmo.
O pescoço tenso é o sinal físico dessa divisão. Não a tensão passageira de um dia difícil — a rigidez crônica de quem aprendeu que sentir é perigoso e que manter a cabeça no lugar é sobreviver. Perder a cabeça, no sentido de Gawain, é o movimento que a terapia às vezes convida — e que essa tensão resiste com toda a força que tem.
A coragem de Gawain não está em enfrentar o machado. Está em dobrar o joelho.
Uma observação final
O poema medieval que originou o filme tem mais de seiscentos anos. O convite que ele faz — render-se ao que não se controla, atravessar o medo sem garantias, descobrir que a transformação exige perder algo — não envelheceu. Talvez porque esse seja o tipo de convite que cada geração precisa receber de novo, nas formas que consegue ouvir.
Para alguns, chega num filme numa tarde de sexta-feira. Para outros, no pescoço que não para de doer.
Marcelo Ivanovitch — Terapeuta Reichiano
Atendimentos presenciais no Rio de Janeiro e online para todo o Brasil
Crédito da imagem: material de divulgação do filme Green Knight.





